Crônica de uma pessoa – com deficiência. Por Fernanda Boaventura.

O ano era 1983. Meus pais, um jovem casal que havia passado por um aborto espontâneo no ano anterior, e estava cheio de expectativas para o bebê que estava chegando. Naquela época, além das ultrassonografias não serem tão precisas, havia um costume de não querer saber o sexo do bebê. Também o pré-natal não envolvia tantos exames de imagem, e minha mãe se lembra de ter feito duas ou três ultrassonografias ao longo da gestação. E tava tudo bem – pelo menos era o que parecia.

O parto estava previsto para janeiro de 1984, mas logo depois do natal minha mãe se sentiu mal e procurou atendimento, quando foi diagnosticada com pré-eclâmpsia e soube que o parto teria que ser antecipado. E no dia 28 de dezembro de 1983 eu nasci. Devido ao quadro de hipertensão minha mãe foi sedada, eu nasci com algumas complicações também e aproximadamente 1 hora depois, quando mãe e filha estavam estabilizadas, perceberam que a mão esquerda não estava lá. Minha mãe, ainda sedada, não sabia de nada. Meu pai não estava lá, morava em Belo Horizonte e tinha programado as férias para a primeira semana de janeiro, para acompanhar o parto previsto para essa data, que aconteceria em Teófilo Otoni, cidade natal da minha mãe. Como esse não é o tipo de notícia que se dê por telefone, avisaram ao chefe do meu pai, que o liberou sob a justificativa de conhecer a filha que nascera antecipadamente. Anos depois eu entendi isso, e também o porquê de tantas histórias de visitas ao hospital. Achei que era por ser primogênita, primeira neta ou outras coisas. Era apoio. Suporte. Solidariedade ao jovem casal que não tinha ideia do que fazer ou do que iria enfrentar dali pra frente. O leite secou, mas em 15 dias voltou e eu mamei até quase dois anos. Aos três entrei na escolinha, e sempre tive muitos amigos. Li sozinha aos 5, e fui adiantada 1 ano – naquela época se iniciava o ensino fundamental aos 7, eu iniciei aos. 6. Aos 8 fui homenageada em um concurso de poesia, que não ganhei porque não tinha 9, idade mínima permitida e que eu não sabia da regra ao me inscrever. Aos 12 era líder de turma e criei o primeiro jornal mural da minha escola. Vida “normal”. Até os 13, quando “descobri” a minha deficiência…

Foi como se um filme passasse pela minha cabeça, e todos os olhares, perguntas indiscretas e situações de discriminação fizessem, a partir dali, algum sentido. É difícil até de explicar, mas eu não tinha noção do impacto disso até aquele momento. Talvez porque não tivesse mesmo nenhum impacto, talvez porque aquele jovem casal tivesse feito bem o dever de casa, e na medida certa, me criaram com independência e autoconfiança suficientes pra não me sentir inferior a ninguém – a história da vida até os 13 me mostrava isso. Mas naquele momento nada disso importava mais. Eu só queria entender, meio que como se a vida fosse ser diferente dali pra frente.

E foi. Como foi a de qualquer adolescente que passou por suas dificuldades inerentes à idade. Aos 14 tive o primeiro namorado, aos 18 faculdade, aos 22 nutricionista, aos 23 professora universitária. Aos 27 me casei, e esse ano comemoro 10 anos de casada. Hoje sou servidora pública, esposa, tia e madrinha de uma criança que me ama tanto que já perguntou se quando crescer vai ter um cotoco igual ao meu. E ao longo desses 24 anos de pessoa com deficiência, foram tantas situações de preconceito, discriminação e dores que não caberia em uma lauda. Em contrapartida, as conquistas, alegrias e aprendizados foram tão maiores, que não dão espaço pra essa outra parte da história. Primeiro a pessoa, depois a deficiência. Aquele jovem casal já sabia disso, mesmo sem saber, lá em 1983. O espaço que a deficiência ocupa em minha vida, hoje, é o bastante pra me fazer lembrar quem sou, independente dela, e poder mostrar isso pras pessoas. Limitar minhas dores e alegrias a isso seria limitar quem sou, e desde cedo aprendi que não tenho limitação. Só tenho amor.

25 thoughts on “Crônica de uma pessoa – com deficiência. Por Fernanda Boaventura.

  1. Essa moça é singular e magnifica em tantos aspectos que é impossível não se apaixonar por tudo que ela é, e não se maravilhar com tudo o que faz.

  2. Que depoimento maravilhoso e emocionante. Isso mostra que a deficiência não impede ninguém de desenvolver e seguir a sua vida. Parabéns pela história e pela pessoa dedicada que você.

  3. Que caminho lindo 🥰 lembro de ir te visitar no seu consultório de Nutri 🍕🍕😂 depois de quando foi morar sozinha o seu ap estava tão amoroso 🥰 e das tuas alunas da Faculdade que te adoravam, vc sempre foi garra e luz 😘😘

  4. Que lindo Fernanda.
    Saiba que você é uma inspiração pra nós, pais de criança com agenesia. Que eu possa ter sabedoria pra criar meu filho do jeito que seus pais te criaram. Beijo grande.

  5. Sua trajetória daria uma excelente história, e deu rs. Parabéns pela garra e coragem de compartilhar uma parte de quem você é!

  6. Que riqueza de texto!! Sua história de vida toca profundamente a nossa alma e o nosso coração, Fê!! Por favor, continue nos brindando com essas crônicas maravilhosas!! Vc é uma lindeza de inspiração!!

  7. Que história inspiradora e cheia de amor! Que você siga assim, valente, autoconfiante e feliz com quem você é. Eu acho você simplesmente maravilhosa!!! 😘😘😘

  8. O espaço que a deficiência ocupa em minha vida, hoje, é o bastante pra me fazer lembrar quem sou, independente dela, e poder mostrar isso pras pessoas. Limitar minhas dores e alegrias a isso seria limitar quem sou,
    Linda mensagem

  9. Tenho um neto com a mesma deficiência é na mão esquerda e te falo nunca amei tanto essa criança não por não ter maozinha mais sim por ser uma criança linda esperta maravilhosa para o seu um aninho espero toda felicidades pra ti e quando vejo uma história dessas me encho de esperança porque amor ele já tem o Heitor agora a gente sabe das descriminação já estamos preparados tbm pra mostrar que ele pode levar uma vida normal como qualquer ser humano bjooooooo🥰

  10. Emocionante depoimento, acho que expressa a maneira como meu filho se sente… tenho um filho com agnesia de membro, meu primeiro filho, ele tem 17 anos, assim como você, não tem a mão esquerda. Seu relato sobre seus pais, descreveu como eu e meu marido criamos o Wilian, para ser independente e nunca se sentir menos que ninguém. Mas como você, ele também passou por muito preconceito, tanto que ficou muito acanhado em público, só se solta mesmo com os amigos e entre a família … Assistimos hoje uma reportagem sobre a Associação Dar a Mão e ele então percebeu que não é o único e que não estamos sozinhos nessa luta. Que Deus abençoe você e a essa maravilhosa associação 👏👏👏👏

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